Lupin, Sócrates e o fascínio dos ladrões de casaca

Por Álvaro Filho

Não é de hoje que as peripécias dos criminosos das altas esferas e os falhanços da Lei ao tentar prendê-los hipnotizam a opinião pública e monopolizam o noticiário do país. Um século antes da Operação Marquês, as mirabolantes aventuras de um ladrão de casaca, o francês Arsène Lupin, tornaram-se virais entre os leitores, e não apenas na França, ao ponto de o seu criador, o jornalista e escritor gaulês Maurice Leblanc, ombrear em prestígio com o inglês Arthur Conan Doyle e o seu Sherlock Holmes.

A popularidade do homem dos mil disfarces, porém, não resistiu tão bem ao tempo e as suas divertidas histórias pareciam confinadas aos amantes da literatura policial. Isso até a Netflix resgatar Lupin do esquecimento em 2021, com a badalada série francesa cujo protagonista, Assane Diop, é um fiel discípulo da personagem de Leblanc, inspirando-se nos seus roubos fantásticos para atormentar a vida da Sûreté.

Na série no Netflix, Assane Diop é um fiel discípulo da personagem de Leblanc, Arsène Lupin.

Publicado pela Porto Editora, o livro de cabeceira de Diop agora está disponível aos leitores portugueses, numa versão semelhante à que aparece no ecrã. Arsène Lupin – Cavalheiro Ladrão traz nove contos que funcionam como um abecê do universo concebido pelo igualmente ardiloso Leblanc, um narrador não fiável e que, assim como sua personagem, parece divertir-se enquanto baralha o leitor.

O livro começa com a prisão de Lupin – e qualquer semelhança com as desventuras de José Sócrates é mera coincidência – curiosamente, durante um desembarque

O livro começa com a prisão de Lupin – e qualquer semelhança com as desventuras de José Sócrates é mera coincidência – curiosamente, durante um desembarque. Seguem-se julgamentos de instrução fracassados, vazamentos de informações confidenciais à imprensa e políticos, nobres e banqueiros a mexerem os cordelinhos para evitarem ser arrastados nas confusões provocadas por Lupin. Um dos contos enumera os seus delitos e a impressão é que nem o juiz Ivo Rosa seria capaz de reduzir a lista.

Sherlock Holmes é constantemente lembrado, sempre com certo desdém, e é até convocado para um duelo– intelectual, não de MMA – com Lupin, no conto que encerra o livro. O paralelo entre Lupin e Holmes é inevitável. Ambos descendem da linhagem de Auguste Dupin, criado pelo norte-americano Edgar Allan Poe, o detetive de Os Crimes da Rua Morgue, considerada a obra seminal história policial. Ao lado de Hercule Poirot, eternizado por Agatha Christie, os quatro são a nata do “romance de enigma”, caracterizado por excêntricos personagens com os cérebros privilegiados, cujas deduções infalíveis são normalmente narradas por um fiel amigo.

Sherlock Holmes é constantemente lembrado, sempre com certo desdém, e é até convocado para um duelo– intelectual, não de MMA – com Lupin

Há, porém, uma divergência ideológica: Holmes espelha o liberalismo inglês, um detetive privado workaholic que, quando não está a trabalhar, recorre à cocaína prescrita pelo doutor Watson para debelar a depressão. Lupin, por outro lado, é um bon vivant, apreciador da companhia feminina, de espírito anarquista e inimigo dos códigos moral e penal. Marca uma tradição na literatura policial na França, avessa ao empreendedorismo private eye inglês e norte-americano. Depois dele, viria o funcionário público comissário Maigret, representante da pesada máquina do estado social francês, um burocrata no combate ao crime.

O livro é também uma oportunidade de conhecer a escrita inventiva, ágil e bem-humorada de Maurice Leblanc, hábil em se valer de as personagens literárias não terem rosto para realizar as tais mil trocas de disfarces de Lupin e assim ludibriar polícia e leitores. Uma artimanha a mais de quem, há um século, já havia percebido o fascínio exercido nas pessoas pelos crimes de um ladrão de casaca. Tanto lá como cá.

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Álvaro Filho

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